Páginas

sexta-feira, dezembro 26, 2014

Negra nesga de um caderno

A escuridão dessa passagem me fez tremer até a alma. Era uma única frase escrita em um papel amassado que foi esmagado contra a minha mão.
Foi assim, chegou, olhou fundo nos meus olhos e pegou minha mão esquerda fazendo ela se abrir, apertou o papel lá e fechou.
Saiu correndo sem dizer nada, o cabelo preto e curto deitado atrás dela. Era uma mistura de mistério e mosteiro, havia um segredo ali mais uma calma e paz de espírito (dela).
O trecho do mistério foi resolvido bem rápido. Abri o papel e li.
A parte do mosteiro que eu acho que foi perdida em algum lugar, talvez não volte a encontrar tão cedo.
O papel tinha a grafia de sempre. A tinta estava um pouco borrada no final, mas nada que impedisse a compreensão da leitura.
Sempre me perguntei, enquanto estávamos juntos, até quando iríamos durar.
Durou até eu abrir aquele pedaço de folha de caderno e tentar olhar uma última vez pro fim da rua, mas a esquina já a havia engolido.

sábado, abril 19, 2014

E nem em todo
O céu de São Paulo

Nenhuma rua
Nenhuma estrada

Nem sob toda a rua Augusta,
Eu via mais estrelas
Do que nos olhos seus

quarta-feira, junho 19, 2013

Eu gosto tu gostava

"Eu quando gosto, é diferente". Me disse com um copo de cerveja na mão.
A minha vida parece que foi escrita por um autor de romances policiais, que decidiu mudar de tema e quis partir pro drama. Nunca vi tanta confusão, nunca vi.
Olhei para ele, e para o seu copo vazio.
Peguei a garrafa pelo gargalo, ela ainda tinha um pouco de bebida e joguei contra a cabeça dele. O estrondo foi tanto que vi pedaços de vidro voando atrás do balcão, assustando quem estava por perto, mas o casal que estava além das mesas de bilhar não esboçou reação além de nos olhar e continuar a beber. Um segurança veio, vestido de urubu. Outro apareceu, careca, e esse perguntou se estava tudo bem. Disse que sim. Meu amigo na minha frente, com a cabeça sangrando um pouco e ainda tonto pelo baque disse que estava ok.
Nunca achei que ele diria isso, porém quis continuar a sua história. Pediu uma cerveja para ele e se ofereceu para comprar uma outra para mim, aceitei. Disse que era disso mesmo que estava falando, que eu havia compreendido-o completamente. 
Me disse que a sua vida era assim, estava com uma mulher há três anos mês que vem, mas tinha achado a mulher de seus sonhos em uma padaria. A primeira ele morava junto e a segunda era apenas uma amante, quando ele finalmente largou a sua mulher, a amante disse que estava namorando com outro cara e que eles deveriam deixar de se ver. O outro cara, o da amante, era rico e nunca tomaria cerveja barata e um pouco quente em um bar como esses, vivia na elite e tomava champanhe.
Ele me disse que queria tomar champanhe. Mas não me disse que queria ver a mulher de novo.
Ele me disse que sempre que acha que esta certo, vem alguém e lhe da com uma garrafa na cabeça. Vem a vida e lhe da com a garrafa na cabeça.
Mas ele não desistiu. Não até hoje.
O pobre homem continua levando garrafas, porém não desiste. Sempre que lhe perguntam, diz que esta ok.
E realmente ele está ok
Com garrafas quebradas e a cabeça sangrando e está ok.

quarta-feira, maio 08, 2013

quarta-feira, abril 24, 2013

Mataste a ti mesmo, moribundo

Sentado em uma cadeira, paredes brancas e o cheiro típico de remédios pairava o ar. Em uma cadeira sentava uma doce menina de cabelos loiros e olhos brancos, apalpando as pernas de seu pai para poder senti-lo, respirando o mesmo ar e ouvindo os mesmos sons. Ao lado da mesa, uma jovem mulher, com aparência limpa e poucas rugas no rosto, uma saia colorida contrastando com o ar de preocupação que solta a cada baforada. Sentado no meio, nu de pensamentos, está um homem que tem o cabelo escuro e as narinas grandes, somente consegue respirar com seu corpo entubado à uma escrivaninha.
A sua respiração está mais fraca, cada vez pior.
Entra um médico no quarto e seus sapatos gincham, faz alguns exames, abre-lhe os olhos, examina procura coloca uma luz lá dentro, sem reação: "É inoperável, vai morrer assim coitada."
Levanta a mulher triste com a pobre criança, decide sair sem agradecer. Atrás o homem levanta, ainda nu, e arrasta seus livros com ele.
Sua mulher dizia que esses livros todos foram pior do que se ele houvesse morrido.
Ele dizia, quando dizia alguma coisa, que sentia como se tivessem lhe levado a alma do coração.

sexta-feira, abril 19, 2013

Seus sapatos não eram de salto, e sim um tênis velho, sujo de lama. Sua roupa era uma jaqueta lustrosa e uma calça justa. Não tinha um sorriso no rosto, e ao invés disso, um batom roxo. No seu cabelo havia uma fita de cetim que cobria a testa dando uma volta em sua cabeça.
Sentou-se ao meu lado e não disse nada, apenas soltou um largo suspiro. Olhei-a nos olhos, e perguntei se estava brava ou entediada. Não estava. Passei as mãos em seus cabelos e senti o cheiro que saia de lá. Coloquei a mão em sua perna e levemente encostei o meu rosto perto do seu. Senti uma hesitação que logo sumiu, dando lugar à um desejo. Seu desejo de estar comigo, desejo de não ter mais nada no que pensar. Havia apenas um desejo em sua respiração, que agora estava mais forte perto do meu rosto.
Cedi à essa vontade que compromia-lhe a alma, que apertava-lhe o estômago, que a faria gritar e se contorcer em poucos segundos. Atei suas mãos juntas com uma fita de cetim vermelha em cima da cama.

sábado, abril 13, 2013

De Largar

Com a mochila nas costas, lotada de roupas apertadas entre si,
Mãos dadas,
Um abraço,
Puxar a linha, 
Um golden retriever mais dourado do que o sol.

Soltá-la no chão,
Largar,
Adeus,
Uma pipa voando,
Pega a bolinha!