segunda-feira, julho 02, 2012
Cara
Bar. Sol de inverno. Dois homens jogando dominó na praça. Cachecóis e blusas de lã, meias altas e roupas simples.
Homem 1: O frio que vem do norte me gela até as canelas, num posso com isso.
Homem 2: Cara, o frio te faz sentir vivo, não acha? Aquela sensação de arrepio, te lembrando que ainda tens cabelo; aquele gelo te lembrando que a pele ainda sente.
Homem 1: Sim, mas e o nariz gelado que até dói a mão quando você encosta?
Homem 2: Cara, sua mão tá quente, você tem roupas, o frio é bom.
Homem 1: Ah, você é sempre tão assim, de bem com a vida... Aparenta uma serenidade, seu sorriso é pequeno mas diz muita coisa. Você tem uma cara de felicidade!
Ele então joga a última peça do dominó, toma um gole de sua cachaça e diz:
-Cara, é só a cara.
quarta-feira, junho 06, 2012
Comum
Como todas as manhãs, ele acordou e tomou um banho bem quente. Colocou o short de corrida, camiseta folgada e aquele tênis velho com a sola em verde limão. Pegou Charles, seu cachorro, e saiu de casa andando, já que a corrida só começava quando chegava ao parque. Não gostava de mudança na rotina, por isso era todo dia a mesma coisa: banho, barba, short, Charles, anda, corre, volta, trabalho. Todos os dias eram assim, menos domingo. A manhã estava de um cinza sujo, típico das manhãs em São Paulo; e o parque estava com o chão molhado. Charles não se continha de alegria e queria cheirar todas as árvores do Ibirapuera.
Como todas as manhãs, ela acordou e tomou um banho bem quente. Decidiu colocar a saia bege e a blusa com casaco. Saiu para encontrar um cliente do escritório que estava conhecendo a cidade, e nenhum lugar melhor do que o Parque Ibirapuera. Não costumava andar de saltos muito grandes, por isso usou aquele azul de sempre. O parque não era um dos ambientes que ela mais gostava, talvez fosse aquele vento que poderia bagunçar o cabelo, ou então o cheiro de mato que não saia do nariz. Chegando no parque recebeu uma mensagem de que o cliente se atrasaria, e ela teria que ficar esperando; resolveu andar.
Enquanto corria ouvia uma música animada, para dar pique e esquecer um pouco de qualquer pensamento. Ia com charles na frente, correndo como um louco e tentando se esfregar no primeiro objeto com mais de 1,20m que poderia aparecer; em movimento ou não. Começou a tocar uma das músicas que menos gostava, sorte que era um música rápida. Enquanto andava parecia que o mundo estava conspirando contra ela, uma libélula enorme passou com um zumbido no seu ouvido, aqueles meninos que estavam seguindo e de olho no celular, o sol começou a sair e a deixar com calor. Tinha gente demais andando de skate ali do lado, e se me acertassem? O cheiro de grama molhada começou a irritar, e o sol a brilhar mais forte.
Foi então que ele bateu seus olhos no dela. Foi então que ela bateu seus olhos no dele. Que sexy uma mulher em 2012 usando um cabelo cacheado ao estilo anos 70. Que engraçado um cara correndo do lado de um cachorro com cara de idiota. Polainas? mas nem está tanto frio. E esse shortinho de corrida, brega! Estou chegando perto dela, melhor limpar o nariz. Opa, outra mensagem de texto. Ela está realmente muito arrumada, deve ser alguém importante. Acho que aquela pomba vai fazer cocô nele. Realmente, além de bonita ela é muito cheirosa. Sai daqui. Vou começar a vir mais arrumado pra cá. Sai daqui. Parece que ela tá olhando pra mim, que olhos lindos. SAI DAQUI, DROGA.
Charles estava em transe, não respondia ao puxão da coleira e nem aos empurrões que foram dados. Era constrangedor, um cachorro daquele tamanho fazendo sexo compulsivamente com a perna daquela mulher. Acho que o dono é que estava na pior situação, perdido e ouvindo música, tinha deixado o cachorro lá e só percebeu quando ouviu o grito da mulher, desesperada. As patas de Charles fizeram manchas enormes na saia dela, e ele não conseguindo entender nada.
Deu-se que, os dois foram um de cada lado, um iludido o outro apaixonado; um gritando e o outro envergonhado; um amando e o outro desarrumado.
quarta-feira, maio 23, 2012
Nina - Chico Buarque
Nina diz que tem a pele cor de neve
E dois olhos negros como o breu
Nina diz que, embora nova
Por amores já chorou que nem viúva
Mas acabou, esqueceu
[...]
Posso imaginar por dentro a casa
A roupa que ela usa, as mechas, a tiara
Posso até adivinhar a cara que ela faz
Quando me escreve
Nina anseia por me conhecer em breve
Me levar para a noite de moscou
Sempre que esta valsa toca
Fecho os olhos, bebo alguma vodca
E vou...
domingo, abril 08, 2012
Mata? Morri!
Se o sentimento de perda matasse, eu já estaria morto.
Voltar ao passado deveria ser permitido, para trazer aquele sentimento gostoso que eu tanto sinto falta.
As vezes eu gostaria de poder apagar as palavras que eu disse,
de apagar as palavras que eu ouvi.
Aqueles olhos verdes não são mais os mesmos de antes, não são mais os mesmos de nada.
Malditos olhos cor de esmeralda, belos na forma e na cor.
Simples olhos que apenas com o seu brilho me fizeram dar parte de mim pra eles,
Diz um vida outro morte, um loucura e outro amor.
Mas ai de mim, nem já sei qual fiquei sendo depois que os vi.
Mas ai de mim, não pertenço mais à vida depois que os vi.
segunda-feira, março 19, 2012
-O que é coragem para você? perguntou-me um senhor numa praça. Parei para pensar e, no auge da minha sabedoria de uma criança de 5 anos, disse-lhe "Coragem é derrotar um dragão usando apenas uma espada!". Ele riu de mim e foi andando com a sua bengala TocTocToc.
Agora, anos depois, me lembrei daquela história. Aproveitei as férias do meu trabalho e voltei à cidade que cresci, para ver se encontrava com o senhor. Bati de casa em casa, e nada. Resolvi dar uma volta na antiga praça, e percebi que havia uma população muito grande de velhos lá. Alguns sentados no banco, outros jogando dominó, e foi aí que eu entendi.
Aquele senhor, há muito tempo atrás, queria me ensinar o que era a coragem, queria que eu seguisse o seu exemplo. Todos aqueles velhos na praça, todos sorrindo e todos velhos. Isso é coragem. Coragem é ver seus cabelos esbranquiçarem, sua pele enrugar e alguns de seus amigos queridos e próximos morrerem. Não há coragem maior do que envelhecer e ver o amor de sua vida em um caixão, ambos de cabelos brancos, ossos frágeis e a memória fraca.
A coragem que aquele senhor demostrou pra mim na praça, aquele dia, não tem preço. A coragem de colocar a sua melhor roupa, sair de casa com um sorriso no rosto e, mesmo sabendo que a sua morte está perto, instigar a curiosidade de uma pessoa por anos.
Velho maldito, como podia ainda sorrir?
quarta-feira, março 14, 2012
chega de finais felizes
E digo chega de finais felizes, de gente romântica e de sorrisos derramados.
Que seja dado um basta à essas baboseiras melosas, e que todos os casais apaixonados derretam em seu próprio mel.
Quando percebo, estou sentado no sofá de novo, vendo a novela das seis das sete... O tempo passou pra mim e o arrependimento me pesa nos ombros. Tento levantar mas me falta o ar e caio num mar revolto de águas sujas. Volto para a realidade e me lembro de respirar. Que bom seria se esquecesse de respirar, tipo, pra sempre. Mas não consigo desaprender, sou teimoso. Vou quebrar a cara mais uma vez, vou tentar e não vou conseguir. É meu destino, nasci do avesso.
E por isso quero o fim de finais felizes, o fim de amores correspondidos e o fim de tudo o que eu não tenho.
Sou egoísta, quero pra mim também. Quero, desejo, quero desejar, quero que me deseje.
CHEGA, BASTA, UM PONTO FINAL AOS FINAIS FELIZES.
Nada de três pontos,
só ponto mesmo.
terça-feira, março 06, 2012
Para Musa
Deixe-me dormir
saia da minha mente
saia de mim
venha pra mim
tome conta de minha mente
não me deixe mais dormir.
saia da minha mente
saia de mim
venha pra mim
tome conta de minha mente
não me deixe mais dormir.
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